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Volta às aulas e o Coronavírus

Atualizado: Jul 13

por Vivien Bock, diretora do CAPE


As escolas estão em recesso, um inimigo invisível obrigou-as a suspender as aulas temporariamente. Nunca se falou tanto e por tanto tempo de um único tema, seja pelos meios de comunicação, pelas mídias sociais, no dia-a-dia das pessoas, quando conseguem se encontrar, porque é melhor se isolar.


Mas uma hora vai passar, aos poucos vamos retornar, e é necessário que as escolas estejam preparadas, não só com todos os cuidados sanitaristas mas com uma atenção especial para o emocional de todos os envolvidos. E neste sentido gostaria de compartilhar algumas ideias de estratégias para esta volta.


Antes da abertura para os alunos, certamente os professores terão algumas reuniões de planejamento pedagógico para este retorno e antes de qualquer trabalho devemos pensar em reconhecimento e agradecimento ao esforço que tiveram de transformar aulas presenciais em virtuais num exíguo espaço de tempo e sem treinamento para tal; à dedicação a seus alunos e familiares que pediam explicações e passavam suas incertezas e ansiedades a estes docentes. Mais do que nunca é necessário a valorização destes profissionais e esta pode ser de várias formas como a psicóloga projetando mensagens de alguns alunos de reconhecimento aos seus professores ou com um grupo de pais indo a escola homenageá-los com uma salva de palmas pois também são heróis desta pandemia.


Depois destes primeiros momentos será muito necessário, aos docentes expressar como passaram por este difícil período de home office com os próprios filhos solicitando, ao mesmo tempo, ajuda nas suas atividades escolares. É importante que reconheçam o quanto foram competentes e que superaram seus próprios limites e capacidades. Deve ser um dia de orgulho de profissionais que não deixaram a vida parar e mantiveram um pouco de normalidade dentro da anormalidade.


Quando finalmente os alunos retornarem devemos comemorar esse reencontro, comemorar a vida, a amizade e portanto a escola deve estar enfeitada porque será um momento de comemoração. Como ainda não são possíveis os abraços e a proximidade física, porque não criar formas de expressar a alegria como sacudir as mãos com os braços erguidos, ter um grito de guerra ou outra forma de expressão e ao mesmo tempo de desabafo de sentimentos?


Antes de retomar os conteúdos pedagógicos será necessário falar sobre este vírus que modificou nosso cotidiano e trouxe a incerteza sobre o nosso destino, sobre a nossa saúde, sobre o risco que crianças e jovens se tornaram para os seus avós.


A escola precisa estar preparada para ser continente para receber e escutar estas angústias de toda a comunidade escolar. Voltar às aulas depois das férias, depois de um feriado é um encontro para contar novidades boas, sobre passeios, banhos de sol, enfim a diversão da vida. Mas voltar às aulas depois de um período de reclusão obrigatória, de confinamento durante muito tempo em um espaço limitado, sempre com as mesmas pessoas (embora que fosse com a própria família, às vezes sendo mais difícil justamente por ser a própria família) e com a permanente ameaça do vírus, este retorno às atividades escolares é completamente inédito entre nós. Creio que para a maioria será um momento de grande alívio, de liberação de energia represada e de comemoração pela vida cotidiana que retorna e que nos traz o conforto e a necessidade da previsibilidade e estabilidade.


A escola deve estar preparada para esta explosão de sentimentos e principalmente aberta a escutá-los ajudando a todos os professores e alunos a acolher e elaborar este drama pessoal e mundial. É o momento de cada docente aproveitar deste limão que é o coronavírus e transformá-lo em limonada, associando-o à sua matéria. Este é o tema atual que tem muito significado a todos e portanto pode emprestar significado a todas as disciplinas escolares:

  1. A Geografia pode abordar sobre usos e costumes dos povos, sobre densidade populacional, sobre globalização…

  2. Os gráficos de evolução da doença, as probabilidades são temas para a matemática e a química pode explicar o uso do álcool gel, do sabão e de suas propriedades químicas…

  3. A história está repleta de outras pestes que assolaram a humanidade e de que como foram enfrentadas.

  4. As línguas podem aproveitar de tantos documentários divulgados pelos meios de comunicação em inglês, alemão, espanhol e claro, português e alertar sobre uma comunicação ética sem fake news.

  5. As artes podem possibilitar a expressão gráfica destes sentimentos dos alunos assim como mostrando também obras que traduzem tempos difíceis.

  6. A Educação Física será responsável por tirar o mofo dos movimentos e dos músculos.

Enfim, a interdisciplinaridade através do estudo das causa e consequências deste vírus que parou o mundo, proporcionará a exposição de ideias e sentimentos e favorecerá a elaboração deste trauma.


Nesse processo não se pode esquecer do corpo docente, primeiro porque devem estar fortalecidos e instrumentalizados para acolher os alunos e também pela preocupação de dar conta dos conteúdos atrasados.


Mas além de todo este processo integrado, é fundamental que a escola abra espaço para a psicóloga escolar trabalhar com cada turma sobre suas vivências e sentimentos durante o período de recesso. Ouvir as experiências e percepções de cada aluno e, muito importante, fazer isto em grupo, junto com os colegas, é além de um exercício de elaboração individual, uma prática de empatia, de solidariedade e de respeito com o outro. Alguns alunos terão vivido ou assistido alguém próximo que foi infectado ou até que perderam algum parente querido nesta guerra contra o vírus. Outros trarão relato sobre o tédio de ficar em casa, da saudade dos colegas que nem a internet supriu, outros lembrarão da solidariedade entre vizinhos, da convivência em família, da importância da ciência e de seus profissionais e dos que trabalharam nos bastidores se expondo à contaminação. É importante que falem para os colegas e os ouçam, a capacidade de ouvir o outro com atenção nos humaniza.


É um trabalho que deverá estar presente desde o berçário, ao acolher as mães e pais que voltam a deixar seus pequenos em novo período de adaptação, assim como na roda de conversa da Educação Infantil, no trabalho de habilidades sociais com as crianças perpassando pelos alunos do Ensino Fundamental e Médio.


Também é importante que a escola transmita esta alegria às famílias que retornam a entregar seus filhos à escola após um período que talvez nunca antes a parceria família escola foi tão importante. Esta parceria precisa ser mantida porque é bom para o aluno e porque ainda não vencemos esta luta totalmente.


Quanto mais falarmos e elaborarmos esta crise e valorizarmos a superação, a solidariedade e a empatia resgataremos a nossa tranquilidade de continuar vivendo sabendo que somos fortes!


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