Crianças sempre online: o que a Psicologia Escolar precisa discutir sobre tempo de tela e saúde mental?
- contato00245
- há 3 dias
- 6 min de leitura
Atualizado: há 2 dias

As telas fazem parte da infância e da adolescência contemporâneas. Celulares, tablets, computadores, televisão, jogos on-line e redes sociais estão presentes nos momentos de lazer, comunicação, estudo e convivência familiar. Para muitas crianças e adolescentes, o ambiente digital também é um espaço de descoberta, aprendizagem, expressão e contato com amigos e familiares.
Não se trata, portanto, de pensar a tecnologia apenas como um problema. Recursos digitais podem favorecer o acesso à informação, apoiar atividades pedagógicas, ampliar formas de comunicação e até contribuir para a inclusão e a acessibilidade. O desafio está em compreender como esses dispositivos estão sendo utilizados, quanto espaço ocupam na rotina e o que podem estar substituindo na vida de crianças e adolescentes.
Quando o uso das telas passa a ocupar o tempo do sono, das brincadeiras, da convivência familiar, da atividade física, do estudo ou das relações presenciais, é importante que famílias e escolas parem para olhar com mais atenção. A discussão não deve se limitar ao número de horas diante de uma tela, mas considerar também os conteúdos acessados, os horários de uso, a presença ou ausência de supervisão e os efeitos dessa rotina no bem-estar emocional.
Mais do que contar horas
É comum que o debate sobre tempo de tela se concentre em uma pergunta: quantas horas por dia são permitidas? Embora os limites sejam importantes, eles não dão conta de explicar sozinhos a relação que cada criança ou adolescente estabelece com a tecnologia.
Duas horas de tela podem ter significados muito diferentes. Uma criança pode estar participando de uma videochamada com familiares, assistindo a um vídeo educativo ou jogando sozinha durante um longo período, sem pausas e sem interação com outras pessoas. Um adolescente pode utilizar o celular para pesquisar conteúdos escolares, conversar com amigos, acompanhar redes sociais ou permanecer conectado durante toda a madrugada.
Por isso, além do tempo, é necessário perguntar: o que a criança está fazendo na tela? Em que horário? Com quem? O uso está sendo acompanhado por um adulto? Quais atividades deixaram de acontecer para que ela permanecesse conectada?
As orientações brasileiras para o uso de dispositivos digitais consideram a faixa etária e recomendam cuidados específicos. Crianças menores de 2 anos não devem ser expostas às telas, exceto em situações como videochamadas com familiares. Entre 2 e 5 anos, a recomendação é limitar o uso a até uma hora diária, com acompanhamento de adultos. Para crianças maiores e adolescentes, é essencial equilibrar o tempo digital com sono adequado, atividades físicas, convivência e experiências fora das telas.
Quando a tela ocupa espaços importantes
O excesso de tempo conectado pode aparecer de diferentes maneiras na rotina. Algumas crianças ficam irritadas quando precisam interromper o uso do celular ou do videogame. Outras passam a perder o interesse por brincadeiras, conversas, esportes ou atividades que antes eram prazerosas.
Também podem surgir dificuldades para dormir, especialmente quando o uso de telas acontece próximo ao horário de deitar. Notificações, jogos, vídeos e conversas on-line mantêm a criança ou o adolescente em estado de alerta e podem dificultar o descanso necessário para o dia seguinte. A privação de sono pode afetar a atenção, o humor, a memória e a disposição para aprender.
No contexto escolar, esses efeitos podem se manifestar por meio de cansaço, dificuldade de concentração, queda no rendimento, sonolência durante as aulas, irritabilidade, isolamento ou conflitos com colegas. Nenhum desses sinais indica, sozinho, que há um uso problemático de telas. Mas, quando se tornam frequentes, podem revelar que a rotina digital precisa ser compreendida com mais cuidado.
É importante evitar explicações simplistas. Nem toda dificuldade de aprendizagem, alteração de comportamento ou sofrimento emocional está ligada ao uso de tecnologia. Ainda assim, investigar como as telas estão presentes na vida do estudante pode ajudar a equipe escolar e a família a compreender melhor sua rotina, seus vínculos e suas necessidades.
Redes sociais, comparação e saúde mental
Na adolescência, as redes sociais ganham um lugar ainda mais relevante. Elas funcionam como espaços de pertencimento, expressão, entretenimento e reconhecimento. Curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações podem ser percebidos como sinais de aceitação pelo grupo.
Essa dinâmica pode intensificar comparações com outras pessoas e gerar ansiedade em torno da própria imagem, do número de seguidores ou da reação a uma publicação. Quando o adolescente se sente excluído, pouco reconhecido ou exposto a comentários ofensivos, o ambiente digital pode deixar de ser um espaço de conexão e passar a ser fonte de sofrimento.
Além disso, conteúdos irreais ou excessivamente idealizados podem reforçar a sensação de inadequação. A comparação constante com corpos, estilos de vida, conquistas e padrões de sucesso pode afetar a autoestima, especialmente em uma fase em que a identidade ainda está em construção.
Por isso, a conversa sobre saúde mental e telas precisa incluir temas como autoestima, pertencimento, privacidade, exposição de dados pessoais, cyberbullying, consumo digital e pressão por aprovação. Não basta dizer ao adolescente para “ficar menos no celular”. É necessário compreender o que ele busca, encontra e sente nesse espaço.
O papel da família
A família tem um papel fundamental na construção de uma relação mais saudável com as tecnologias. Acompanhamento não significa vigiar cada conversa ou invadir a privacidade da criança e do adolescente. Significa conhecer os aplicativos e jogos utilizados, conversar sobre os conteúdos acessados, estabelecer combinações claras e manter abertura para que dúvidas e situações de risco possam ser compartilhadas.
Alguns cuidados cotidianos podem fazer diferença: evitar telas durante as refeições, estabelecer momentos de desconexão, manter o celular fora do quarto ou distante da cama durante a noite e valorizar experiências que envolvam brincadeira, movimento, leitura, convívio e contato com outras pessoas.
Também é importante que os adultos observem o próprio uso de telas. Crianças aprendem muito mais pelo que vivenciam do que apenas pelo que escutam. Quando a família consegue reservar momentos de presença e atenção compartilhada, cria referências mais saudáveis para o uso da tecnologia.
O que a escola pode fazer?
A escola não deve assumir sozinha a responsabilidade sobre o uso de telas, mas pode ser uma parceira importante das famílias. Projetos de educação digital, rodas de conversa, reuniões com responsáveis e atividades sobre segurança, cidadania digital e saúde mental ajudam a tornar o tema mais próximo da realidade dos estudantes.
A Psicologia Escolar pode contribuir para que essa discussão não seja baseada apenas em proibições. Seu papel é ajudar a escola a compreender como as tecnologias atravessam as relações, a aprendizagem e o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.
Isso pode incluir a escuta dos estudantes, a orientação às famílias, a formação de professores e a construção de projetos que abordem tempo de tela, redes sociais, cyberbullying, exposição de imagens, privacidade, sono e equilíbrio entre vida on-line e experiências presenciais.
Mais do que combater a tecnologia, trata-se de formar crianças e adolescentes capazes de utilizar os recursos digitais com responsabilidade, senso crítico e cuidado consigo mesmos e com os outros.
Uma relação possível com o digital
As telas não vão desaparecer da vida das crianças e dos adolescentes. Elas fazem parte das formas atuais de aprender, brincar, comunicar-se e construir vínculos. A questão mais importante, portanto, não é simplesmente retirar os dispositivos da rotina, mas construir um uso que respeite as necessidades de cada etapa do desenvolvimento.
Uma criança precisa de tempo para brincar, movimentar-se, imaginar e conviver presencialmente. Um adolescente precisa de espaços para se relacionar, construir autonomia, descansar e elaborar suas experiências. A tecnologia pode estar presente em tudo isso, mas não deve substituir aquilo que é essencial para o desenvolvimento emocional, social e físico.
Quando escola e família conversam sobre o assunto, estabelecem limites possíveis e oferecem alternativas significativas fora das telas, tornam-se mais capazes de proteger a saúde mental e promover uma relação mais equilibrada com o mundo digital.
Se você deseja se aprofundar nessa temática, uma possibilidade é conhecer a Especialização em Psicologia Escolar e Educacional, do CAPE. A formação aborda conteúdos como desenvolvimento psicossocial, neuropsicologia na infância, autorregulação emocional e da aprendizagem, escola e família, além do módulo A Infância no Contexto Digital, que discute competências digitais, redes sociais, exposição de dados pessoais, segurança na internet, cyberbullying, tempo de tela e consumo infantil.
Outra possibilidade é o curso de curta duração Prevenção dos Riscos da Internet na Infância e Adolescência, voltado para profissionais que desejam compreender melhor os desafios do ambiente digital e desenvolver estratégias de orientação, proteção e prevenção com crianças, adolescentes, famílias e escolas. O tema também dialoga com a Especialização em Psicologia Escolar e Educacional, que integra desenvolvimento, saúde mental, violência escolar e intervenções institucionais em diferentes níveis de ensino.




Comentários