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Os Anos de Latência

Atualizado: Jun 26

Esta fase do desenvolvimento infantil que acontece entre os 6 e 12 anos de idade é marcada pela reorganização das estruturas defensivas do ego. O próprio nome, latência, remete a algo que temporariamente deixou de ser ativo ou melhor, que está ativo, mas funcionando em segundo plano. Não consigo deixar de relacionar esse processo com a preparação de um pão, afinal depois de se colocar todos os ingredientes dentro de uma bacia, misturando-os até formar uma massa homogênea, recomenda-se que ela descanse para poder crescer. Muitas pessoas não tem paciência para esperar a massa descansar como deveria porque acham que é bobagem e depois reclamam que o pão não cresceu e ficou como uma sola de sapato, uma pedra (os adjetivos usados variam de acordo com a frustração de quem fez o pão).

Da mesma forma, a latência é fundamental para que a criança possa canalizar as energias de suas pulsões reprimidas em atividades culturalmente e socialmente aceitas, como o estudo, o esporte, entre outros. A criança descobre o prazer de brincar em grupo, inventando brincadeiras recheadas de imaginação e criatividade. Internalizam regras, aplicando-as nos mais diferentes contextos possíveis.


Lembro que no período da minha infância referente à latência, os meninos colecionavam figurinhas de jogadores de futebol na intenção de completarem o álbum, enquanto as meninas divertiam-se colecionando pastas e pastas de papéis de carta. Em grupo, a brincadeira continha um pouco mais de ação, já que usávamos máscaras de nossos personagens favoritos (na época a febre era em torno dos Flashmen e Chagemen) imaginando ter o poder deles. Mas não se iludam pensando que meninos entravam nessa brincadeira. Raramente, quando estávamos de bom humor, permitíamos que um primo que morava perto participasse também. As atividades da escola limitavam-se em exercícios repetitivos que por alguma razão adorávamos fazer, como seguir linhas pontilhadas com o lápis, pintar desenhos sem borrar, escrever a data completa no topo da página do caderno, sem falar da boa e velha caligrafia.


Nos dias de hoje os super heróis e as brincadeiras não são mais os mesmos e as atividades do colégio passaram por reformulações a fim de atender determinados requisitos. No entanto continua existindo um período da vida da criança em que ela aprende a canalizar sua energia pulsional em prol do seu desenvolvimento como pessoa e parte integrante de uma sociedade.


Snarnoff em seu texto fala em docilidade, calma e educabilidade como características marcantes da latência. No entanto, quando a estrutura do ego é abalada, como em casos de abuso, a criança geralmente apresenta um comportamento inquieto em sala de aula, muitas vezes impedindo ou dificultando os processos de aprendizagem e de interação social. E o que deveria ser elaborado através da fantasia e do simbólico na latência, torna-se  explícito e real demais para ser canalizado de uma forma saudável, afetando o desenvolvimento da criança. Daí a importância de se permanecer atento a qualquer mudança no comportamento dela e intervir quando necessário, incentivando-a sempre a respeitar regras e a administrar da melhor forma possível seus impulsos.


Afinal, a energia gerada pela intensificação dos impulsos reprimidos é o fermento que fará com que se inicie a preparação para a próxima etapa, a adolescência. Mas para o fermento funcionar, lembre-se do segredo do pão, a “massa” precisa descansar.


Texto desenvolvido pela aluna da turma de Especialização em Psicologia Escolar, Isis Müller.

Referências: Snarnoff, C.A. Estratégias Psicoterapêuticas nos Anos de Latência. Ed. Artes Médicas, 1995.

#Latência

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