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Reprovação: o que aprender desta lição.

por Vivien Rose Bock, diretora do CAPE

Eis que chegam os últimos dias do ano letivo e os resultados finais são divulgados. A maioria dos alunos segue em frente para o próximo ano mas sempre há os que reprovam.

A reprovação é uma situação delicada e que merece uma atenção muito especial, é necessário debruçar-se sobre este resultado e entender o seu significado, que é diferente para cada aluno, para cada família e para cada professor.

A repetição deveria ser encarada como uma nova chance para o escolar de aprender o que não foi devidamente assimilado mas certamente é o sentimento de fracasso que se apresenta nesta situação, principalmente para o aluno. Seus colegas conseguiram passar e ele ficou para trás. A auto estima sofre um forte abalo.

– Por que eu não consegui? Por que os outros foram adiante e eu não? Eu sou burro, já sabia que ia rodar! Como enfrentar a família, pais, irmãos e amigos? E no ano que vem vou para a turma dos menores, vou ser o mais velho?

Sentimentos de fracasso, vergonha, raiva da escola, dos professores, de si mesmo.

E como a família lida com esta situação? O filho é uma decepção, rodou porque quis, não estudou, é malandro. A filha tem dificuldades, coitadinha, se esforça mas não consegue acompanhar. A escola não tem metodologia didática para ensinar crianças como meu filho, só consegue educar de um jeito tradicional…

Os alunos rodam por vários motivos e é fundamental que a escola consiga definir quais as causas que dificultaram a aprendizagem suficiente para a aprovação de cada estudante pois só assim o aluno, sua família e a própria instituição escolar podem entender e criar estratégias para solucionar estas dificuldades.

Como ajudar emocionalmente frente à reprovação escolar

Em primeiro lugar penso que a escola deve se preocupar em apoiar os alunos e familiares neste momento sendo continente de seus sentimentos e atenta principalmente para a auto estima da criança ou adolescente.

É importante deixar claro que ninguém é burro ou incapaz porque precisa repetir um ano e que aprender o que não conseguiu é fundamental para a consistência dos seus conhecimentos. Muitas vezes, o aluno que se apresenta fraco academicamente num ano, no próximo consegue muitos bons resultados justamente porque reviu conteúdos que já tinha aprendido parcialmente e então os compreende de forma completa e sua autoestima cresce.

Também é comum a repetição ser oriunda de imaturidade emocional ou cognitiva, de alunos que entraram muito cedo em relação à faixa etária da turma e das exigências escolares daquele período. Assim a repetição se torna um ajuste etário, o aluno acompanhará com mais tranquilidade o que será solicitado, com menos estresse e com mais chance de sucesso.

Por outro lado, se a reprovação foi motivada por “malandragem”, “ preguiça”, se o aluno não fazia seus temas, não estudava para as provas, só ficava no celular e dormia muito tarde, não só o aluno deve rever seus comportamentos como também a família precisa entender que ele ainda não demonstra autonomia suficiente para se organizar e assumir as responsabilidades escolares sozinho. É importante orientar esta família de como manter um controle e auxílio para com o filho, sem contudo assumir seus deveres. No entanto, sabemos que muitas famílias não conseguem cuidar de si mesmas e a escola (psicóloga, coordenação e professores) deve estar então mais próxima deste estudante no próximo ano, acompanhando seu desempenho e resultados mais de perto e auxiliando-o na organização escolar.

No entanto, os resultados negativos que levam à repetição, podem ser sintomas de distúrbios emocionais existentes e a reprovação pode desencadear um processo depressivo importante que deve ser alertado à família e tratado com o aluno. Neste caso, devemos analisar o histórico pessoal e familiar, os relacionamentos afetivos e sociais e indicar acompanhamento psicológico para o fortalecimento emocional do jovem.

É sempre interessante ajudar a enxergar que a reprovação, apesar de não ser agradável a ninguém, não se trata de algo incomum, que num primeiro momento é realmente chato e triste, mas que em todos anos se apresentam alunos que se beneficiarão com o que naquele instante parece ruim. É importante não banalizar a situação, realmente várias coisas não deram certo durante o ano letivo e deverão ser revistas para o próximo, mas também não se trata do fim-do-mundo. Ficar chateado ou chorar fazem parte de enfrentar as vicissitudes da vida e também estes sentimentos nos amadurecem e levam à uma reflexão mais profunda de como entender o que deve ser modificado. Até mesmo a alegação frequente de que perderão seus amigos pode ser relativizada, pois continuarão os encontrando na escola e também podem marcar atividades fora dela. Além disso um novo grupo de amigos irá se formar ao ingressarem numa nova turma, como aconteceu quando ingressou na escola.

Ás vezes, surge também a preocupação de como comunicar aos outros (colegas e familiares) da reprovação, principalmente pelo receio de sofrer alguma gozação ou reprimenda. Em primeiro lugar deve o próprio aluno colocar a situação não como um fracasso, mas como uma oportunidade de se dar bem na vida, de melhorar seus conhecimentos e habilidades e ainda criar novas amizades.

Não podemos esquecer que a reprovação é também um resultado da escola e portanto merece uma reflexão séria de sua participação ou ausência neste fracasso escolar. A isenção de responsabilidade, mesmo que parcial, não possibilita uma mudança no que deve ser alterado para evitar novas reprovações como uma didática diferente, um olhar mais atento, um acompanhamento mais próximo do aluno e de sua família. Os conselhos de classe não devem servir apenas para fechar as notas e definir os destinos escolares dos alunos mas devem também propiciar a auto crítica de todos os envolvidos no processo de ensino/aprendizagem, corpo docente e equipe pedagógica, incluindo aí a psicóloga escolar.

A reprovação de um aluno é a última lição do ano e temos que aproveitar para todos aprendermos algo com ela.

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